Nelson Farinha
Nelson Farinha
Conciliar para respirar

As constantes mudanças que ocorrem no mercado de trabalho têm provocado nos trabalhadores hipermodernos sintomas de insegurança profissional, de dificuldades e outros tipos de pressão. De acordo com Lipovetsky “muito mais sofridos do que desejados, os preceitos da nova gestão são associados ao risco de despedimento e à redução das proteções coletivas, ao aumento das dificuldades e a degradação das relações de trabalho.”

O receio de “despedimento, o burnout, o agravamento do stress, a intensificação das responsabilidades, os ritmos de trabalho e o receio permanente de não estar à altura das novas tarefas” (Lipovetsky), exaltam nos trabalhadores uma determinada pressão levando muitas vezes estes trabalhadores (pais, mães, avôs, avós, etc.) a saírem tarde dos seus locais de trabalho, reduzindo o tempo que deveria ser dedicado à família.

Estas situações, criam nos trabalhadores um conflito com sua própria consciência. Se por um lado, sofrem pressão laboral, por outro, desejam fazer parte de uma sociedade que, atualmente, valoriza muito mais os seus interesses individuais, os seus prazeres, a vida familiar, o repouso, as férias e as viagens.

Quantas vezes não aconteceu querer ir buscar os seus filhos à escola e não conseguir, porque teve de ficar a trabalhar até mais tarde? Quando esta situação é esporádica, tudo bem. O problema é quando se torna regular. Diversos estudos têm vindo a demonstrar que muitos pais têm alguma dificuldade em conseguirem acompanhar os filhos como esperavam e justificam tal facto com pressão laboral que lhes é exercida.

Para combater estas situações, o Governo e a Assembleia da República, com pequenos passos, têm vindo a produzir legislação e alguns programas, no sentido de promover uma maior conciliação entre a vida profissional e a vida familiar, porque este é um dos maiores desafios da atualidade. Mais do que nunca, é cada vez mais imprescindível organizar os tempos de trabalho, permitindo assim uma melhor partilha das responsabilidades familiares e domésticas.

Prova disso foi a criação do Programa «3 em Linha» que o Governo da República apresentou em dezembro de 2018, cujo o objetivo é “promover um maior equilíbrio entre a vida profissional, pessoal e familiar, como condição para uma efetiva igualdade entre homens e mulheres e para uma cidadania plena, que permita a realização de escolhas livres em todas as esferas da vida.”

O programa apresentado visa, de acordo com a informação disponibilizada, “melhorar o índice de bem-estar, no indicador “Balanço vida-trabalho” (INE). Este é um esforço conjunto do Governo, de empresas públicas e privadas, e de entidades da Administração Pública central e local. O Programa organiza-se em quatro eixos: O eixo 1 — (Im)Pacto para a conciliação; o eixo 2 — Conciliar na Administração Pública; o eixo 3 — Equipamentos, serviços e incentivos para a conciliação; o eixo 4 — Conhecer para conciliar.”

Apesar de esta medida ser reconhecida como importante para a consciencialização das organizações nesta matéria, é relevante que as mesmas envolvam todos os trabalhadores na implementação das medidas e não apenas os gestores e especialistas em Gestão de Recursos Humanos. Liderar, motivar, avaliar e desenvolver estão entre as competências mais significativas dos gestores, independentemente das áreas funcionais ou níveis hierárquicos.

Conciliar melhor a vida profissional, pessoal e familiar favorece a diminuição do absentismo, o aumento da produtividade e a retenção de talento. Trata-se de uma evolução cultural que deve envolver a sociedade como um todo.